segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Não nasci para fingir de santa...

Sou apenas uma jovem monja que não tem mais de dezesseis anos.
Rasparam minha pobre cabeça desde a mais tenra idade.
Meu pai de tanto amar os sutras budistas.
Minha mãe de tanto aos monges budistas obedecer.
Dia e noite, noite e dia, sem cessar,Eu queimo incenso e rezo pelos outros.
Ai! Só porque nasci uma pobre criança doentia...
Mandaram-me sumir no fundo de um mosteiro.
"Amitabha! Amitabha!",Vivo eu incessantemente a repetir.Ai!
Quanto estou cansada do rufar dos tambores...
E do tilintar das campainhas!
Cansada do sussurrar das preces e das melopéias e das ladainhas;
Dos cochichos e lamentos das orações ininteligíveis;
Dos clamores e clangores das intermináveis cantorias;
Do balbuciar e do murmurar dos monótonos salmos.
"Prajnaparamita, Mayura-sutra, Saddharmapundarika"
Oh, como eu vos odeio a todos!Enquanto a boca murmura:
"Mitabha",Intimamente eu suspiro: "Ai, meu prazer!
"Enquanto a voz entoa: "Saparah",Grita meu coração:
"O tempo voa!"Enquanto os lábios modulam: "Tarata",Minha alma insiste:
"Foge para longe!"Ah, se eu pudesse dar apenas um passeio...
Só um passeio, ah, se eu pudesse dar!"
(Neste ponto do poema, a monja caminha até a Galeria dos Quinhentos Lohans, os santos budistas, e esta parte da poesia é ainda mais genial em sensualidade e revolta)
Ei-los! Cá estão eles, os Lohans.Que turma de toleirões concupiscentes!
Que olhares deitam eles para mim!E cada qual que seja mais barbado!
Reparai no que comprime os joelhos trêmulos.Seus lábios só balbuciam o nome meu.
E o outro que pousa a face sobre a mão, não pensa em ninguém mais senão em mim.
E aquele que tem uns olhos sonhadores.Que outra heroína há nos seus sonhos senão eu?
Por que será, porém, que o vestido de estamenhaÉ o que vem por último?
Com seu infernal e satânico sorriso,Seu rugidor e mirabolante riso...
Rindo só para mim? Rindo só para mim, sim, eu sei por que:
Depois de apagada a beleza e morta a mocidade,
Quem ousará desposar uma ovelha envelhecida?
Quem desejará desposar um casulo engelhado,
Depois de morta a beleza e a juventude perdida?
Oh, tu que sustenta o dragão:És um cínico!E tu que empunhas uma flor:
Não passas de um escarninho!E tu, belo gigante de longos cílios,
Que te mostras tão apiedado,É de mim que te apiedas desde já,
Daquilo em que eu me tornarei depois de minha beleza perdida.
Ai, esses candelabros nos altares
Não irão iluminar o meu quarto de noiva jamais!
Nem este longos turíbulos de suave incenso,Servirão para a minha festa nupcial.
Nem os coxins e as esteiras de bambuPoderão servir-me de colcha ou travesseiro.
Oh, Deus, de onde me vem esse ardente e sufocante anseio?
Esse rábido, estranho, extraterreno anseio, de onde me virá?
Quero rasgar todas as minhas vestes monacais!
Quero queimar todos os budistas sutras!
Quero afogar um por um os peixes de madeira...
E abandonar para sempre este covil de abutres!
Oh, tamnbores e campainhas
E sinos,
E ladainhas,
Tudo eu abandonarei!
Todas as intermináveis e exasperantes rezarinas!
Depressa descerei das alturas deste monte...
E irei em busca do mais jovem e do mais belo amante.
E ainda que ele me despreze,
Me expulse...
Me dê pancada,
Prefiro isso a decorar feitiçarias!
"Mita, prajna, para!
"Não nasci para fingir de santa!

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