O querido leitor Tiago Cruz chamou minha atenção para uma crítica publicada na Folha de S. Paulo, no dia 29 de julho, de autoria de João Pereira Coutinho, que até um tempo atrás – antes de ele começar a se vangloriar de suas façanhas – eu apreciava bastante. O autor, não a crítica. Eu já tinha lido a dita cuja, mas de certa forma havia me identificado com Coutinho, que disse apenas o que pensa e, desta maneira, não justificaria uma refutação. Mas, porém, contudo, entretanto, pensando nos leitores do Bom de lingua, resolvi fazer minha própria análise da crítica, afinal se ele botou a cara pra bater é porque espera safanão. Eu bem sei.
O texto diz respeito ao filme Batman - O Cavaleiro das Trevas, e já começa preconceituoso quando diz que seres preocupados em salvar a humanidade não podem usar collants, máscaras, pinturas ou capas voadoras. Uma coisa é admitir o ridículo de se usar cueca por fora da roupa, outra é dizer que alguém vestido assim não pode salvar o mundo. Gandhi se vestia de quê? Algo bem próximo a um pano de chão, procure no Google uma imagem. De repente é o must na Índia, mas há de se admitir que se parece bastante com um pano de chão (ou lençol, nos dias mais frios). E se ele se maquiasse como os caras do Kiss, perderia a importância? Se estivesse nu? Cortado como Iggy Pop ou Sid Vicious? Ou só vale se for limpinho e asseado? Se fosse dar um jeito em São Paulo, poderia vir até de vassoura vestido de Tiririca. Eu não me importaria. Você?
Ah, sim, estamos falando de cinema. Mais um motivo pra que tudo possa, graças a Deus. Graças a Ele – seja Ele quem for - que criou a gente, existe arte, que tudo pode.
Coutinho acha que não. E acha que homens adultos, casados (ohhhh, homens casados = homens maduros. Ahan, conta outra.) que gostam de Batman e afins são, trocando em miúdos, impotentes. Foi ele quem disse, não eu. Eu já acho que se diverte, não tem que ser reprimido, muito pelo contrário. Aliás, reprimir sim causa impotência, assim como perversões sexuais. Eu me divirto horrores lendo Harry Potter, ouvindo Ramones e assistindo ao Monty Phyton e por isso sou iletrado? Sério mesmo? Ah, tá. Alguém ditou a regra que Monty Phyton (loucos, vestidos até de velhinhas arruaceiras, fazendo as coisas mais infantis do mundo) pode, então eu sou só meio iletrado.
Em uma coisa, porém, eu concordo: devemos dar a devida importância às coisas. Não adianta projetar significados extras à última saga do homem-morcego, querendo estipular metáforas com a nossa realidade e chegando ao extremo de dizer que Cavaleiro das Trevas não seria possível se não fosse o 11 de setembro, que, por sua vez, sozinho, levou o mundo à catástrofe de ser o que é hoje. Menos. Creio ser impossível criar algo sem ser um pouco contemporâneo (a não ser obras de época) e bebericar no mundo – podre há tempos, não depois de um dia específico – que nos rodeia, mas daí a querer traçar paralelos a torto e a direito sobre a obra de um artista é forçar a barra, é trabalho pra crítico... essa raça que nasceu para bisbilhotar a produção alheia. E da mesma forma, devemos dar a devida importância ao trabalho de Heath Ledger, e não entrar no coro de “ele merece o Oscar”. O cara esteve fabuloso, não lembrava nem de longe o insosso caubói de O Segredo de Brokeback Mountain. Morreu, pena, muita, mas é isso. Oscar a ele seria um contra-senso. Ainda que eu não duvide que role.
Para terminar o capítulo “bisbilhotando a vida alheia”, aponto o que pra mim é o maior erro de Coutinho: dar importância desmedida não só a um filme feito para divertir, como, principalmente, às críticas irreais que o longa rendeu: “Confrontado com Batman e Coringa, nenhum adulto equilibrado vê um super-herói e um supervilão. Vê, simplesmente, dois dementes de pijamas que fugiram do asilo da cidade”. Não sou equilibrada, portanto.
Guardo aqui pra mim que Coutinho invejava a fantasia de algum coleguinha no jardim da infância. Não é possível alguém inteligente se importar tanto com isso. Apesar de que alguém inteligente, inegável, que fica recitando quantos livros tem, quantas vezes já assistiu ao Casablanca, em que museu foi ontem, antes de ontem, na semana passada, e por aí vai, está com sérios problemas de auto-afirmação. Sabe aquela máxima de que homem que tem carrão está querendo compensar algo de sua anatomia que deixa a desejar em tamanho? Pois é...
E como ele diria, divago. Quase consigo imaginá-lo saindo do armário vestido de Demolidor para incorporar uma fantasia sexual anti-impotência. Ué, não tem gente que se veste de babá, mecânico, enfermeira? Demolidor está até num nível acima, exige um certo conhecimento, vai. Difícil ia ser segurar a crise de riso.