[O fantasma da lembrança]
Extermínio 2 (lançado em DVD pela Fox) não prometia muito. A primeira parte se tornou um clássico instantâneo e a continuação não contava mais com a direção do excessivo Danny Boyle (embora o mega-over-ator Robert Carlyle substitua bem o diretor). Mas a boa surpresa se repete e a segunda parte da trama retoma bem o fio da meada, contribuindo para a discussão do fascínio que filmes sobre mortos-vivos e vampiros exercem sobre as platéias. Extermínio 2 se passa 28 semanas depois (título original em inglês) da eclosão do vírus mutante, que dizimou a maior parte da população inglesa e transformou outro tanto em zumbis. Agora o exército norte-americano toma conta do pedaço, com ordem para matar qualquer suspeito de ser portador do tal bichinho. Uma família protagoniza o filme, diferentemente do primeiro filme, em que o salve-se-quem-puder imperava. O problema é que o vírus está incubado, inativo em um dos personagens. O que fazer? Destruí-lo ou preservá-lo para estudos e descoberta de uma vacina? Os estadunidenses representam um novo projeto nacional, fascista. Pureza da raça humana. O vírus mutante pode estar atenuado, mas o que decidir? O filme brinca e ao mesmo tempo pega pesado com laços familiares em oposição à independência, ao projeto de uma vida sem ligações afetivas com o passado, agora transformado em ameaça de terror. A metáfora com o temor que a diversidade nos provoca é evidente. Memória saudável é a que se transforma. Podemos amar alguém hoje e odiá-lo amanhã. Algum tempo depois, o rancor é esquecido por um olhar delicado, por um pedido sincero para que a afeição continue. Em Extermínio 2 há vários momentos deste olhar de súplica que diz: "estou diferente do que era, mas ainda sou eu, com o mesmo afeto por você". O que fazer quando alguém que amamos se transforma repentinamente em um monstro?
“Como hoje, homens e mulheres de coragem, em particular jornalistas como Marx,morriam pela liberdade de falar, escrever, pensar.”(Jacques Attali, na introdução de Karl Marx - ou o espírito do mundo )
[Monstros comunistas]
As idéias de Marx não têm nenhuma responsabilidade sobre as ditaduras comunistas. Essa é a idéia central deste livro. O economista francês Jacques Attali há muito tempo faz uma boa mistura de sua área com a história e o jornalismo. Desta vez, o objeto é Karl Marx. Attali confessa que nunca foi apaixonado pelo pensador cujas idéias deram origens às maiores transformações políticas do século 20 e, depois, aos maiores massacres de populações em nome da igualdade de direitos. Em Karl Marx – ou o espírito do mundo (Editora Record), ele refaz a biografia intelectual do pensador alemão que adorava as bibliotecas inglesas. Marx detectou monstros, combateu-os ardorosamente – especialmente o czar russo – mas foi deturpado por seus “seguidores” soviéticos. Attali sempre reforça a luta de Marx em manter uma vida afetiva, impossível de conjugar com sua palavra escrita ardida e compulsiva. Quem não tem amor luta por um ideal. Marx tinha amores, mas preferiu a convivência afastada das mulheres e dos filhos (quase todos mortos precocemente). Neste livro é reverenciado como o herói do pensamento livre e assustadoramente atual.
“A experiência da consciência resulta em um animal imoral.”Nilton Bonder em A alma imoral
[A era das incertezas]
A mulher se despe aos nossos olhos, nua senta-se a uma cadeira e diz: na natureza não existe o nu! E lá está ela, animal desnaturado, rompido, completamente humano.
Certa vez, em um programa de televisão a atriz Clarice Niskier foi surpreendida, ao vivo, por um fax de Dona Léia, uma espectadora judia furiosa que exigia que a atriz optasse entre o judaísmo e o budismo. Niskier fazia, então, uma peça sobre Buda e estava muito sossegada em compartilhar sua tradição judaica com os ensinamentos budistas. Mas Dona Léia a pegou de jeito. E graças às conversas com o rabino Nilton Bonder, que achava perfeitamente compatíveis as duas religiões surgiu o alívio e a deliciosa A alma imoral, (Teatro Eva Herz da Livraria Cultura, São Paulo), título homônimo ao livro de Bonder. Neste monólogo, Clarice conta fábulas talmúdicas e passagens da história judaica que evocam a trangressão de tradições que geram tranformações. E aparentemente em nome da limpidez, a atriz se oferece para repetir algumas passagens da peça que não ficaram claras para o espectador. Ou simplesmente aquela que ele gostaria que fosse repetida. Para um mal-humorado poderia tratar-se de algo pedante – quero-mostrar-que-minha-peça-é-difícil-mas-explico-tudo-de-novo – ou puro exibicionismo. Mas com este rastro irônico, Clarice consegue provar que nunca reproduzimos uma história da mesma maneira. Na repetição há sempre uma variação da história anterior. Seja pela entonação da voz, seja pela expressão de seu corpo quase nu.
No começo do ano passado a OSESP trouxe a consagrada pianista venezuelana Gabriela Montero à Sala São Paulo. Na segunda parte do recital, Montero fez o que mais gosta: improvisar sobre frases cantadas pelo público; evocações de músicas conhecidas. Do improviso vem a transformação. Do sabido vem a renovação. Montero transgredia para surpreender e criar beleza. Assim trabalha a memória que dá continuidade à nossa existência. Para o rabino/escritor Bonder e a atriz Niskier a repetição pode trazer a contravenção, tornando-se, desta forma, de uma imoralidade sublime e transformadora.
“Ele não se arrependeu de nenhum roubo,nem dos dezessete assassinatos que diz ter cometido.”Narração sobre Jesse James emO assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford
[Desenturmado no velho oeste]
A lenda diz que Robert Ford matou seu ídolo Jesse James. Em O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford (Lançado em DVD pela Warner), Robert é feito por Casey Afleck, reforçando de forma fascinante a debilidade daqueles que copiam e querem apenas comer, antrofagicamente, seu objeto de desejo. Ford é sempre desprezado pela patota à qual quer pertencer. Idolatra Jesse, um Brad Pitt perfeito como o adorado blasé pouco ligado para a vida. O jovem admirador guarda numa caixa de sapatos sob a cama recortes de notícias, pulp fictions baseadas em proezas do bandido, além de sempre estar próximo ao bando de sua futura vítima. O filme é brilhante e cruel. À medida que Ford aprende a fingir certa esperteza copiada de seu herói perde o ar ingênuo e se transforma num monstro pronto a devorar. Na peça A alma imoral assistimos à transgressão que traz transformação pelas histórias contadas e também modificadas quando recontadas. Em O assassinato de Jesse James... também há o teatro. Jesse se transforma em ator de sua própria história, mas acaba ridicularizado pela repetição sem ousadia, pela manutenção de um lugar de herói que nunca acreditou ser - nem foi! Freud estimulava seus pacientes a repetirem suas histórias porque aprendeu que elas sempre eram contadas de forma diversa. Traziam novidades que poderiam dar sentido à análise. Robert Ford mostra como desejo cumprido pode resultar em vida medíocre.
“Eu sempre acreditei que o medo pertencia aos outros. Pessoas mais fracas.Nunca me tocou. E então aconteceu. E quando toca em você, você sabe…”Érica Bain (Jodie Foster) depois de atacada no Central Park em Valente
[Irritando Jodie Foster]
Trauma, justiça, instinto, identidade secreta. "Por que eles não me conseguem fazer parar?" se pergunta Érica Bain (Jodie Foster) quando sai do torpor para se transformar em uma justiceira movida por um impulso vingativo em Valente (lançado em DVD pela Warner sem passar pelos cinemas). A mesma pergunta poderia ser feita para a atriz, que repete seguidamente seus últimos papéis (Quarto do pânico e Plano de vôo). Érica, intelectual, poeta e popular apresentadora de uma emissora de rádio de Nova York assiste, depois de ser espancada, à morte de seu noivo em um improvável ataque no super-policiado Central Park. Neil Jordan já tinha trabalhado (melhor) sobre o mesmo tema em Traídos pelo desejo, mas Valente é despolitizado como aquele. Concentra-se na escolha individual do uso da força em nome de um sentimento que é freqüentemente negligenciado: a politicamente incorreta vingança. A trama mostra que um verdadeiro trauma paralisa. A impossibilidade de esquecer, de superar. Érica diz que para suportar a vida após uma grande perda temos de virar outra pessoa, do contrário é impossível continuar. Valente vai até o fim de sua proposta, mas arrisca demais com um fim inverossímil, embora nunca deixe de tocar na relação entre alívio e dor que vem com um ato de vingança. Fica claro, assim como o covarde Robert Ford, que a realização de um desejo pode nos transformar em seres insignificantes.
“Uma balada noturna ideal contém múltiplas experiências”Moby sobre Last night
[A última balada]
A pós-modernidade pode ser entendida como o canibalismo do que já foi moderno. O que é estranho passa a ser aceito, fácil, consumido em larga escala. Quando a música eletrônica explodiu, há dez anos, o calvo-macrobiótico-com-cara-de-indefeso Moby surgiu como um pastor. Organizador do rebanho dos moderninhos passou a ser cobiçado declaradamente até por Madonna, mas avisou que sua missão na terra dos DJs era pessoal e individual. Hoje os dois artistas se encontram no hip hop, em mais uma da alta costura pós-moderna. Assim como a música eletrônica foi absorvida, hoje também o grito de guerra dos negros foi alçado ao maior ritmo das vendas (ou ainda o que sobra disto) em discos. Moby nunca poderia ser acusado de oportunista. Seu disco de maior sucesso até hoje, Play, de 1999 era calcado no soul e seguidamente o nova-iorquino com pinta de europeu usou o gospel em outros álbuns. Seu mais novo trabalho, Last night, vai fazer história. Ou o fim-da-história. A eletrônica já deitou e rolou sobre o punk, depois o rock e agora avança sobre o território da música black. O nostálgico Last night tem todos os ingredientes mais finos criados e cultuados pela música que ousou, mas foi deglutida pela mídia, seja pelos comerciais que abusaram do estilo lounge metido a chique, seja pela danceteria que há em cada esquina de seu bairro. E lá se vai mais um sopro de independência que, como qualquer culto que se transforma em doutrina, virou moda oficial.
“Não há melhor maneira de se esquecer de algo do que comemorá-lo”Tom Irwin, personagem tutor dos garotos-prodígio no filme Fazendo história
[Solidão, a comédia]
Alan Bennet é um dos escritores ingleses mais badalados do momento (fez o premiado roteiro do filme As loucuras do Rei George). Sua peça History boys, em 2006 viajou boa parte do primeiro mundo, conquistou uma enormidade de prêmios e foi filmada com o elenco original (recém-lançado em DVD pela Fox, sem passar pelos cinemas daqui, como Fazendo história). A trama tem como cenário uma escola perdida em qualquer lugar da Inglaterra, mas com um grupo especial de garotos que tenta ingressar em universidades de prestígio. A trama surpreende pela liberdade de expressão. Tudo é excesso. Da poesia ao sexo (de preferência homossexual), às verdades lançadas sem reservas. Nada é oculto, todo sentimento é celebrado. Agora as vozes de Bennet estão sob comando do diretor Eduardo Tolentino, Grupo TAPA. Dos seis monólogos que compõem Retratos falantes dois são encenados no Sesc Vila Mariana (São Paulo) até o início de maio. Os dois primeiros (A sua grande chance, com Chris Couto, sobre uma eterna candidata a estrela de Hollywood, e Uma cama entre lentilhas, com Clara Carvalho, sobre uma adúltera esposa de pastor) já cumpriram temporada, mas a torcida é para que voltem, assim como a representação dos outros dois. Os textos são cômicos e amargos. Tratam da solidão de pessoas comuns, daquelas que podem fazer parte de nossas famílias. Agora Brian Penido faz o filho que reluta em dividir sua claudicante mãe com um pretendente patético em Fritas no açúcar. Mas a grande surpresa é Beatriz Segall em A senhora das cartas, que faz uma desavergonhada “maluca” que escreve cartas compulsivamente tentando impor seu senso de justiça à vizinhança. Ou para qualquer fabricante de salsichas que enviem um fio de cabelo por engano. Segall está tão engraçada, que mal consegue conter sua própria diversão no palco. Muito longe das trágicas damas que interpretou, aqui está à vontade, descabelada e desvestida, andando pelo palco e espalhando suas cartas de advertência. Como nos outros monólogos da série, a personagem busca a cumplicidade da platéia, justificando raciocínio e atitude que só confirmam uma existência condenada á solidão. Se em A alma imoral, Clarice Niskier tenta convencer o espectador que a transgressão pode trazer grandes transformações, em Retratos falantes os textos se apóiam em um esclarecimento, um pedido de desculpas, que é sempre conservador. O público é sempre solidário com os solitários, pois é seu isolamento que nos faz pensar e evitar o nosso.
“Você não precisa de relacionamentos humanos para ser feliz”Christopher McCandless (ou Alex Supertramp, como ele passou a se chamar),o garoto que resolve abandonar tudo e partir para o Alasca no filme Na natureza selvagem
[Solidão, a tragédia]
Sem sexo, nem drogas, muito menos rock'n roll. Baseado em Na natureza selvagem, a dramática história de um jovem aventureiro, de Jon Krakauer, o filme de Sean Penn traz o intenso Emile Hirsch como o jovem recém-formado que decide abandonar qualquer vestígio do que se entende como laço social para sobreviver no inverno rigoroso do Alasca. De 1990 a 1992 Chris McCandless tranforma-se em Alex Supertramp, um literal super-vagabundo, rasgando dinheiro e evitando qualquer aprofundamento de relações humanas. O filme deixa claro que o rapaz é encantador, mas não consegue ir adiante na sua própria teoria sobre relacionamentos. Com evidente apoio da psicanálise e a narração de sua irmã, o roteiro aposta que a rebeldia do jovem se deve a um jogo perverso entre os pais que fingem se odiar, mas estão sempre juntos. McCandless não suporta ficar de lado, passa a questionar a vida doméstica até o supremo ato de abandono completo. O filme com a câmara mágica de Penn é o mais completo exercício de uma das teorias mais caras sobre a existência humana: se estamos condenados à liberdade, só podemos aproveitá-la se houver um outro para fazer parte dela.
domingo, 15 de junho de 2008
Reality show pode escolher a nova geração de integrantes do Kiss
O site NKR conseguiu uma entrevista exclusiva com Paul Stanley e Gene Simmons, os integrantes remanescentes da formação original do Kiss, durante a passagem da banda pela Noruega. Enquanto promoviam a turnê - a maior do Kiss em terras nórdicas - um repórter tentou confirmar se os rumores surgidos na Internet sobre a saída de Stanley eram verdade, e ambos responderam com um sonoro "sim".Em tom de brincadeira, responderam se consideram encontrar o sucessor de Stanley - e até o sucessor de Simmons - em algum reality show no modelo do infame American Idol. "Já assinamos um contrato e isso acontecerá em alguns meses", foi a resposta do linguarudo baixista. Paul Stanley, que não estava junto no momento da entrevista, não ficou feliz ao saber da declaração. Nas palavras de Stanley: "Isso é uma coisa típica de Gene. Ele diz algo como se fosse um fato consumado, mas até o momento não há nenhum contrato assinado nesse sentido. O futuro tem muitas possibilidades. Isso [o reality show] vai acontecer na semana que vem? Não! Eu sou contrário à idéia? Claro que não", disse o guitarrista.Os boatos começaram quando Stanley deu a entender que estava considerando a idéia de se aposentar do Kiss, mas que não veria problema algum em a banda continuar sem ele. Gene Simmons deu declaração similar há alguns meses, sobre o fato do Kiss ser maior do que os quatro fundadores e que se sustentaria mesmo se ele e Paul se ausentassem dos palcos e passassem seu legado para uma nova geração, agindo apenas nos bastidores. Foi o suficiente pra boataria começar - e agora tende a aumentar.
Esquadrão Supremo II
A Marvel apresentou as primeiras páginas de Esquadrão Supremo II - a versão renovada da aclamada série, agora nas mãos de Howard Chaykin e Marco Turini.Como resultado da minissérie Ultimate Power, do ano passado (e ainda sendo publicada no Brasil), o Nick Fury versão Ultimate agora faz parte do universo Supremo. É ele que comanda a investigação sobre quatro astronautas que retornam à Terra após uma aventura "fantástica", totalmente mudados - entendeu a referência, né?
A série aparentemente vai começar em tom de mistério - talvez até sem a participação dos membros conhecidos do Esquadrão Supremo. Como Chaykin já falou, há várias idéias para a série, inclusive uma cambada de novos personagens...
Incrível Hulk - Parte 2
A versão de Ang Lee?Sim. Você tentou mudar tudo, como foi...
Eu adoro o filme de Ang. Gosto mesmo porque, como cineasta, e acho que vocês também sentem isso, é possível sentir o cinema no filme dele. É um ótimo filme. Mas se você tem 7, 8 anos fica totalmente perdido ali. Então minha intenção foi fazer deste Hulk um entretenimento mais geral. Você não precisa conhecer a história do Hulk para entender este filme - espero que meninos de 7, 8 ou 13 anos gostem dele igualmente. Então fomos mais genéricos em relação a ele. É um filme mais acessível. E foi isso que fiz. Meu caminho para fazer este não começou tanto nos quadrinhos, especialmente porque sou francês e a Marvel não era popular por lá quando eu era criança - eu lia Tintim. Mas eu conhecia bem a série de TV e quando eles me ofereceram o trabalho avisei isso, que eu não era grande conhecedor do Hulk. Mas aí fiquei lembrando das coisas que eu gostava na série e cheguei à conclusão de que era porque ele era muito humano. É muito simples. Era simplesmente a história de um homem fugitivo, atormentado pelos seus problemas. Era uma história de perseguição. Ele ia de cidade em cidade, sempre perseguido, tentando recuperar sua vida. Tentando se curar, se livrar dessa sua aflição. E ao longo dessa jornada acaba descobrindo o herói em si, essa coisa que não é tão boa, nem tão ruim. Então foi esse o ângulo que busquei e que me fez aceitar o trabalho. Mas nunca foi minha intenção fazer algo diferente só por fazer. Eu queria que o filme fosse complementar ao de Ang. O filme dele é o filme dele - e eu, como algumas pessoas - o adoro. Mas ao mesmo tempo não queria dar ao público um "mais do mesmo", então busquei algo diferente. Eu queria... e é por isso que ele não começa do começo [com uma origem]... começar com Bruce já fugitivo. Mas não é uma seqüência. É meio que um recomeço. É a versão de um outro diretor do Hulk. É isso.
Ouvi falar que a cena inicial, que foi incrivelmente bem montada, passou por várias versões até chegar à que vemos no cinema. Você pode falar um pouco sobre isso?
Oh, obrigado. Não fui eu que montei, então é por isso que ficou tão bom. O jeito que estávamos fazendo essa cena antes era através de flashbacks. O filme começava antes com Bruce Banner andando no Ártico. Você via um sujeito encapotado cambaleando, andando, caindo de joelhos, seguindo adiante. Aí ele olhava pra cima e dava pra ver o rosto barbado de Banner. Sua expressão é de cansaço, depressão... estamos alguns meses depois do acidente. E ele puxa uma arma e tenta cometer suicídio. Mas se transforma em Hulk. O Hulk o salva. O filme começaria assim e cortaria para a cena no Brasil. Mas ia ficar pesado demais. No Brasil ele está tentando seguir com sua vida, achar uma cura. Aquela cena acabou brevemente nos créditos iniciais. Aliás, todas aquelas cenas seriam introduzidas como flashback. Mas mostramos esse filme às pessoas e todo mundo odiou. Não dava pra entender se era uma continuação, uma coisa nova, nada. Então tomei a decisão de cortar tudo isso. Mas essa cena do Ártico espero que possamos colocar na Internet, em alta definição. Assim quem sabe ela possa ganhar vida própria, como um viral, não sei. Aí o filme ficou com aquela montagem, a introdução veloz, dando algumas pistas do que aconteceu. E lá tem várias surpresas, como o nome de Nick Fury e outras coisas. Eu adorei como ficou. Chamei Cal Cooper para fazê-la, o mesmo cara que fez as introduções de Homem-Aranha e Seven. Ficou maravilhoso.
E por que o Brasil? Por que as favelas?
Porque nós precisávamos de um lugar no mundo em que Bruce Banner pudesse realmente desaparecer. Não sei se você já foi a uma favela, mas é...
Tem uma certa beleza naquele caos.
Há muita beleza naquilo. É muito limpo e organizado. Eu fiquei surpreso. Eu achei que fosse me deparar com lixo por todos os lados, fezes, sei lá. Mas é muito limpo. Eles têm TV a cabo! É uma loucura e servia aos nossos propósitos de ter um lugar em que ele pudesse sumir. É um lugar um pouco à margem da lei, com tanta gente empilhada. Eu queria a Ásia antes, pensava em Hong Kong, mas aí soube que Batman estava indo pra lá. Então nos voltamos para as favelas. Levou um tempo para convencer a Marvel disso, um estúdio dos Estados Unidos, a ir para o Brasil. Porque pra eles, sabe, o Brasil é meio terra de ninguém. Você vai levar um tiro se for pra lá. E eu disse que não, pedi pra ir com minha equipe primeiro, sentir o terreno. E foi tudo tão agradável... Levei então as imagens que fiz e consegui mostrar como o lugar é seguro pra levar atores. Provei que estaríamos bem no Brasil. E tínhamos proteção. Nada aconteceu. O lugar funcionou muito bem dentro das nossas intenções de um mar de humanidade. Aquela panorâmica inicial não é computação gráfica. É nosso helicóptero sobrevoando a favela da Rocinha durante dois minutos. O lugar é imenso. É incrível.
Bom, esse filme tem um orçamento muito maior do que você está acostumado. Você se sentiu pressionado?
Não senti diferença. Sério. Sabe por que? Porque todo esse orçamento em excesso vai para os efeitos especiais. Então as minhas ferramentas para dirigi-lo foram essencialmente as mesmas. Ok, os atores são um pouco mais caros, mas o dinheiro pra filmar é o mesmo. Ou um pouquinho mais, para umas gruas de ponta ou outros brinquedinhos que eu gosto. Mas eu não tive um super salário - a grana toda fica com o departamento de produção. Vai um pedação com os atores, outro com os efeitos. Então é isso, é quase a mesma coisa. Há as mesmas cobranças, os mesmos problemas. E é engraçado, mas 150 milhões não são mais tanto dinheiro em Hollywood, especialmente porque o dólar está tão desvalorizado. Você chega a se sentir um filme pobre. Batman, Indy, esses filmes têm o dobro disso. Fomos filmar no Canadá e o dinheiro deles passou a valer mais que o nosso. A cada dia sumia dinheiro. Eu tinha que ficar olhando o orçamento pra ver se teríamos que cortar cenas com efeitos especiais ou coisa do tipo.
E de quem foi a decisão de mostrar tanto da luta final, aqueles spoilers, nos trailers?
Isso é coisa da Universal. Se fosse eu, não mostraria nada. Gosto que as pessoas descubram tudo no cinema. Mas é o jeito deles. E eu tenho que concordar porque é um filme complicado. É um filme que nasce meio problemático, porque todo mundo vai comparar com o filme de Ang. É um filme em que todo mundo estava descendo o pau há dois anos: 'ok, lá vem mais um Hulk - vamos vê-lo falhar". Mas quando os trailers começaram essa sensação foi diminuindo.
Perguntinha boba: O que é preciso para matar o Hulk?
Não muito. Ele quase morre no nosso, não? Acho que o ponto fraco dele é o coração. Ele é bom. E esse é o ponto fraco de todos os super-heróis. Seus sentimentos os deixam vulneráveis.
Qual foi a colaboração de Edward Norton para o roteiro? O que ele escreveu que está no filme?
Ah, o diálogo é definitivamente dele. E algumas outras coisas, como a mudança do namorado de Betty. Originalmente o personagem de Ty Burrell seria um filho da mãe. Mas agora ele é um cara bom que simplesmente cometeu um erro. Ed acerta muito nessas coisas, nos tons de cinza.
Agora que o filme está pronto, quais seus próximos planos?
Pela primeira vez na minha vida - e não estou exagerando - não sei o que vou fazer a seguir. Acabei o filme recentemente, estou sendo movido por coca-cola com redbull. Sem dormir direito há um tempão. Então não tenho lido nada, estou sem inspiração. E tem a iminente greve dos atores... É meio estranho. E estou numa espécie de limbo agora. Ninguém sabe ao certo se Hulk vai bem ou não nas bilheterias... vamos ver!
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