Capitão Nascimento. Um herói (ou anti-herói) fascinante para todos. Tem a certeza como a dos santos visionários; seduz pela simplicidade. O mundo do capitão Nascimento: potência desmedida que vai da humilhação à tortura, do tapa na cara à sufocação sangrenta... e mesmo à morte. As posições são absolutas. O bem e o mal são claros, assim como os honestos e corruptos: os convencionais, a PM e os caveiras do BOPE. Tropa de Elite traz a consolidação de um paranóico para o trono do Brasil de agora. Quase tudo foi falado sobre este acontecimento dirigido por José Padilha, talvez o mais assistido filme brasileiro de todos os tempos, considerando, é claro, a impossível medição dos espectadores piratas. A transformação da ansiedade de Nascimento em resolução paranóica se dá exatamente com a passagem do policial do bem, Matias, em um truculento vingador. O filme não é fascista, como foi alardeado. Filme fascista típico é aquele que cultua a personalidade salvadora lutando por um ideal de nação: Gladiador. Na cena final de Tropa de Elite, a cara explodida do bandido Baiano é claramente confundida com a do espectador. Não há catarse como nos filmes fascistas, em que a platéia acolhe o herói como seu protetor. O homem do ano, pelo olhar da psiquiatria, é um delirante. O delírio pode ser entendido como um pensamento em via única. Não há espaço para dúvidas, somente para certezas. Não há modificações com as experiências, apenas ratificações. Como típico paranóico, os atos de Capitão Nascimento variam entre a arrogância e a crueldade. Como narrador, diz que quer sair do BOPE, pois não se identifica mais com o tipo necessário para pertencer à Tropa de Elite, mas o Capitão Nascimento personagem, apesar do evidente mal-estar, quer apenas ser clonado. Este é o fio condutor da brilhante narrativa: Capitão está mal. Capitão quer sair. Capitão treina candidatos a herdeiro. Um herdeiro é escolhido. Fim.
[As frases-evento do ano]
A primeira reação ao filme é de um espanto e de um reconhecimento: sabemos pela mídia o que acontece nas favelas cariocas. Mas será que sabemos mesmo? O longa nos ensina algo de novo? Sim: a fórmula de tornar popular algo feito bem longe do padrão-Globo-de-qualidade, mas com um roteiro perfeito e frases memoráveis. Repetidas pelos adolescentes, elas fazem parte do respiro cômico de Tropa de Elite, especialmente a narração irônica do Capitão (impossível para o personagem da trama, que é de um intelecto bem mediano), a seqüência do treinamento (“pede pra sair”). Quem já teve a curiosidade de buscar no Google deve ter ficado impressionado com os resultados: há mais de 1,17 milhão de entradas com Capitão Nascimento! No Orkut são 426 comunidades com mais de 6 mil participantes! Além das comunidades com o nome do capitão, ainda há grupos inteiros dedicados às já célebres frases: “23, o senhor está sem bandoleira”, “Bota na conta do Papa”, “Essa pica agora é do aspira”, “Traz o saco”, “Eu me pergunto quantas crianças precisam morrer para que um playboy possa enrolar um baseado”. Podemos protestar, discutir, mas não há dúvidas que ele é bem popular!
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