quarta-feira, 16 de abril de 2008

Filhas do dragão...

Na segunda metade da década de 1990, a Marvel ia mal das pernas. As histórias não emplogavam, os gibis vendiam muito mal e os maiores ícones da editora afundavam em um mar de lama que parecia não ter fim. A única exceção nesse cenário era o selo Marvel Knights, dedicado a personagens do – tecnicamente – segundo escalão da editora e que era capitaneado por uma dupla de artistas ainda não muito conhecidos do grande público: o desenhista Joe Quesada e o arte-finalista Jimmy Palmiotti.
Depois de produzirem séries fenomenais como “Demônio da Guarda”, arco do Demolidor escrito por Kevin Smith e bastante cultuado até hoje, e algumas porcarias como a saga do Justiceiro anjo (nem pergunta), a Marvel viu que alguma coisa de boa estava saindo do Marvel Knights e, numa decisão arriscada, mas, ao mesmo tempo, corajosa, resolveu promover Joe Quesada a editor-chefe da editora. O resto é história.
Quando Quesada assumiu a editoria da Marvel, no entanto, sua parceria com Palmiotti foi temporariamente desfeita. Os dois viriam a trabalhar juntos novamente, mas de maneira bastante esporádica, já que ser editor chefe da maior editora de quadrinhos de super-heróis dos Estados Unidos (em termos de números e popularidade) não deixa muito tempo para desenhar. Prova disso é o tempo excessivo que a série “Demolidor: Pai” demorou para sair.
Isso sem contar a segunda parceria de Smith e Quesada, “Daredevil: Target”, que já virou lenda tamanha a demora em ser terminada.
De qualquer maneira, depois de passear por outras editoras, Palmiotti voltou à Marvel e, com um novo parceiro, o roteirista Justin Gray, deve ter pedido a Quesada um espacinho na caixa de areia na qual ele um dia brincara. Com a iniciativa da Marvel de recauchutar alguns de seus personagens criados nos idos de 1970 – Luke Cage estava sendo muito bem trabalhado por Brian Bendis, o Cavaleiro da Lua voltava a ser interessante com Charles Hudson, Matt Fraction tinha boas idéias para o Punho de Ferro, o Falcão da Noite voltara a aparecer, dessa vez no gibi dos Thunderbolts, isso sem contar a tentativa frustrada de trazer o Mestre do Kung Fu de volta e a futura adição do Punho aos Vingadores –, Quesada provavelmente deve ter dito para Palmiotti escolher algum dos brinquedos daquela época e tentar se divertir com eles. Buscando no fundo do baú, Palmiotti saiu de lá com Colleen Wing e Misty Knight, ex-namoradas, respectivamente, de Luke Cage e Danny Rand, o Punho de Ferro, nos idos dos anos de 1970.
Pra quem não sabe, Misty era uma policial do esquadrão anti-bombas da polícia de Nova York que, durante a tentativa de desarmar um artefato explosivo, perdeu seu braço direito, que foi eventualmente substituído por uma prótese robótica desenvolvida pela Stark Enterprises; já Colleen Wing é uma ocidental criada por japoneses e, clichê dos clichês, iniciada no bushidô, a arte dos samurais. Eventualmente, ela se tornaria a melhor do ocidente em sua especialidade de luta. No geral, Misty e Coleen eram mais conhecidas por causa de seus respectivos do que qualquer outra coisa. Tanto que quase nunca demonstravam suas habilidades na hora do “vamos ver”.

Ou seja, a dupla era tão importante pro cenário do Universo Marvel quanto a Coelha Branca e o Morsa. ( Pesrsonagens Bizzarros...)
De qualquer maneira, o fato delas serem duas buchas de marca maior não quer dizer nada. Afinal, a grande maioria dos membros da Liga da Justiça Internacional escolhidos por Keith Giffen e J. M. DeMatteis para figurar naquele gibi também era. Quer personagem mais inútil do que G'nort? Gladiador Dourado? Besouro Azul antes da reformulação e eventual morte em Crise Infinita? Mesmo sendo buchas, eles protagonizaram um dos gibis mais populares e legais da História dos quadrinhos de super-heróis.
Talvez essa tenha sido a motivação principal de Gray e Palmiotti, pegar duas personagens de quinto escalão e fazer alguma coisa legal com elas. Só havia um pequeno porém aí. Na verdade, um grande porém: Gray e Palmiotti não são, nem de longe, Giffen e DeMatteis. Consequentemente, pegaram uma idéia até razoavelmente boa e transformaram em um desastre sem tamanho. Filhas do Dragão, nome que escolheram para o gibi estrelado por Knight e Wing e seu time de coadjuvantes bucha é ruim de doer.
O problema de “Filhas do Dragão” nem é tanto as tramas desacerebradas e com buracos de roteiro, as situações clichês e irreais – mesmo em se tratando do Universo Marvel. Nem as imagens e sequências claramente planejadas para atiçar a imaginação dos adolescentes potenciais compradores do gibi, como a que ilustra essa coluna e aquela que acontece no número 5 da série (Avante Vingadores 8), na qual Collen Wing está num combate com um dos mestres samurais que a treinou e resolve quebrar a concentração dele mostrando seus seios. A mulher abre o zíper da roupa que usa e mostra os seios no meio de uma luta e o truque funciona. O fato do seu oponente ser um sexagenário e, consequentemente, ter quase tanta experiência de combate como o Capitão América, a ponto de, teoricamente, esperar o inesperado, é ignorado. Afinal, o que atiça mais a imaginação? Uma luta entediante entre samurais ou a mesma luta com a samurai gostosa mostrando os seios para o oponente? Como eles não são mostrados aos leitores, Palmiotti e Gray devem achar isso um bom exercício de imaginação.
Não, o principal problema de "Filhas do Dragão" é a forma como Palmiotti e Gray apresentam a dupla de protagonistas. Misty e Colleen permaneceram sabe-se lá quantos anos no limbo do Universo Marvel e, de repente, são apresentadas como personagens de primeira grandeza, como se sempre estivessem no centro dos principais eventos da editora. Colleen é a samurai definitiva, que sabe que é capaz de encarar qualquer um em seu caminho e tem diversas armas das quais sabe se aproveitar - lembra dos seios à mostra?; já Misty é a policial durona que saiu do gueto, rainha do sexo e da porrada, capaz de intimidar até mesmo caras como Tony Stark e Steve Rogers, dentre outros. Ambas têm uma rede de contatos que impressionaria até mesmo a SHIELD, tamanha a sua amplitudo e precisão.
Até mesmo os vilões do gibi são um amontoado de clichês. Além de buchas tão insignificantes quanto a dupla, como o Tufão, o Bola Oito (de novo, nem pergunta), Zumbido e Ardiloso (ou Pete Pote de Pasta, como queira), a principal ameaça às gurias no primeiro arco do gibi é uma mulher chamada Ricadonna que, como o nome sugere em português, é uma ricaça editora de moda de dia e mafiosa à noite. Sim, Ricadonna é a força que comanda o submundo de Nova York, tão – ou mais – temida do que Wilson Fisk. A exemplo do Rei, Ricadonna também é mestre em diversas artes marciais e dá uma surra em Knight em um dos números do gibi. Na revanche, lá está ela detonando Misty até que um jorro de adrenalina típico dos filmes do saudoso Jean Claude Van-Damme faz com que Knight vire o jogo.
A coisa ainda piora quando a Marvel autoriza Palmiotti e Gray a criarem um derivado do gibi, na nova versão de Heróis de Aluguel, na verdade, uma continuação de "Filhas do Dragão", inicialmente uma minissérie em seis partes. Por um breve período da década de 1990 o gibi inedito por aqui mostrou as histórias de Luke Cage, Punho de Ferro, Tigre Branco e outros, que, como o título diz, alugavam suas habilidades heróicas. A nova versão do gibi, além de Misty e Colleen, traz ainda uma coleção de buchas: o recém-regenerado Zumbido, Orca – aquele vilão descerebrado que vivia aparecendo nos gibis do Namor, trabalhando com o Attuma – Paladino – mercenário que apareceu esporadicamente nos gibis da Marvel da década de 1970 – Tarântula – nada a ver com o vilão que apanhava do Homem-Aranha, essa Tarântula é mulher – Gata Negra e Shang Chi. Os dois últimos até têm alguma relevância mas, da forma como são trabalhados por Palmiotti e Gray, não passam de mais buchas no balaio. Pra coisa ficar melhor ainda, e estou sendo bem irônico aqui, a primeira missão desse grupelho é capturar o Capitão América. É óbvio que Misty tem banca o suficiente pra peitar Tony Stark e Reed Richards e ainda assim falhar propositalmente na missão que lhe é dada. Sem contar que, como já foi dito, tem mais recursos do que a SHIELD, haja visto o fato dela descobrir um dos esconderijos do Capitão em um estalar de dedos. Ah, e como recompensa por ter falhado, ela e seu grupo ainda são agraciados com toda a tecnologia que a Stark Enterprises pode oferecer. Trocando em miúdos: Misty Knight, uma personagem do quinto escalão da Marvel, de uma hora pra outra tem condições de intimidar o Homem de Ferro. É forçar muito a barra pro meu gosto.
No frigir dos ovos, "Filhas do Dragão" e sua sequência, "Heróis de Aluguel", são muito ruins por pura e simples preguiça de Gary e Palmiotti. Quando DeMatteis e Giffen (LJI) ou Grant Morrison (Homem-Animal) e mesmo Brian Bendis decidiram reformular personagens quase desconhecidos ou há muito sumidos, eles resolveram ir com calma, construindo e redefinindo as suas personalidades e, principalmente, tentando ao máximo fugir dos clichês comuns ao gênero. Isso fez com que os leitores aceitassem de maneira quase natural o novo status daquelas personagens. Gray e Palmiotti, talvez pelo fato de não serem um Morrison ou um Bendis, optaram por outra abordagem, entupiram seu gibi de cenas apelativas e clichês esperando que isso encobrisse sua clara falta de criatividade. Como resultado só podemos dizer que em se tratando de criador de roteiros e diálogos Jimmy Palmiotti continua sendo um ótimo arte-finalista. Já Justin Gray... Bom, seria necessário ver alguma coisa solo dele antes de poder falar alguma coisa. Mas, se seu cartão de visitas é esse, ele deveria repensar seriamente sua carreira.

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